Regiões Portuguesas Manual do Vinho

DO – Península de Setúbal

 

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A Península de Setúbal é uma região singular cujos vinhos são tão generosos e equilibrados como a região que os vê nascer. A Mãe Natureza foi magnânima e requintada, de duas penínsulas “desenhadas” pelos dois maiores estuários portugueses nasceu uma região vasta em biodiversidade, uma área marítima riquíssima em peixe e marisco, um parque natural, e várias zonas de paisagem protegida. A moldura do oceano atlântico e os estuários dos rios Tejo e Sado, conjugada com uma influência marcadamente mediterrânea e uma formação geológica particular, proporcionam características ímpares para o cultivo da vinha.

A Península de Setúbal conta ainda uma das denominações mais antigas de Portugal – a região do Moscatel de Setúbal, cuja demarcação se iniciou em 1907 sendo confirmada e concluída em 1908. A região da Setúbal DO está geograficamente delimitada pelos concelhos de Setúbal, Palmela, Montijo e a freguesia do Castelo pertencente ao município de Sesimbra. Este “terroir”, berço do Moscatel de Setúbal, é único: junta à precipitação anual de 550 a 750 mililitros, 2200 horas de sol derramadas sobre terrenos arenosos e argilo-calcários tudo temperado com uma mão cheia de brisa atlântico.

O Moscatel de Setúbal é o vinho emblemático da Região Vitivinícola da Península de Setúbal e um dos tesouros dos vinhos portugueses. É nesta região que, desde tempos imemoriais, se produzem dos mais prestigiados vinhos generosos portugueses, apreciados por reis e pelo povo. Já no tempo de D. Dinis (1261-1325) o vinho de Setúbal tinha bastante fama. Em 1381, já se exportava grande quantidade deste vinho para Inglaterra. O rei Ricardo II menciona a importação de vinho de Setúbal. O rei D. Manuel “O Venturoso” faz alusões às vinhas de Setúbal num foral de 1514. Em 1675, existem referências à exportação de 350 barricas de Moscatel de Setúbal. Luís XIV, o «Rei Sol» (1638-1715) segundo consta, não dispensava nas festas de Versailles este vinho generoso. Numa ementa de um banquete dos cavaleiros de Malta, realizado em 1797, é citado, entre outros vinhos célebres, o precioso «Setúbal». Em 1855, na Exposição Universal de Paris, o Moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca foi distinguido com uma medalha de ouro.Destacam-se as seguintes referências aos Moscatéis de Setúbal e Moscatel Roxo, feitas por ilustres celebridades do sector vitivinícola:

João Ignacio Ferreira Lapa (1866). “O Moscatel Roxo é fabricado com o Moscatel d’esta mesma cor, planta finíssima muito aromática e sacarina, mas, como todas as plantas delicadas, pouco produtiva e muito melindrosa. Desmaia a cor roxa deste vinho com a velhice, parecendo então vinho Moscatel branco velho; mas embora, porque o sabor balsâmico que adquire em troca, indemniza no paladar o agrado que desmereceu à vista.”

João Ignacio Ferreira Lapa (1867) escrevia na «Memória sobre os processos de Vinificação» que “Em Azeitão, a duas léguas de Setúbal, existe a famosa lavra dos nossos melhores moscatéis, pertencente ao Exmo. Senhor José Maria da Fonseca, enologista de grande saber e habilidade, que tem conseguido aperfeiçoar esta especialidade a tal ponto, que se pode sem lisonja dizer, que não tem rival nem dentro, nem fora do país.”

Visconde de Villa Maior (1875) -“Moscatéis roxos – há uma variedade pequena, de boa produção, que fornece o excelente Moscatel Roxo de Setúbal.”

No dia 9 de Setembro de 1875, Ferreira Lapa, na sua 6ª conferência sobre vinhos, ao concluir o estudo sobre a Estremadura, refere “ a notável e importante comarca vinhateira de Setúbal, a região privilegiada do moscatel com reputação na Europa e nome feito em Portugal, onde bem poucos nomes se fazem”. Não obstante a produção de vinhos a partir das castas Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo ser ancestral, e a história destes vinhos se encontrar documentada a partir do século XIII, é só em 1907-1908, que a região é, oficialmente, regulamentada. O Moscatel de Setúbal compõe o quarteto de vinhos generosos de referência em Portugal: em conjunto com ovinho do Porto, da Madeirae de Carcavelos. Os Moscatéis de Setúbal são vinhos sempre amadurecidos, por um período mínimo de, aproximadamente, dois anos, num estilo oxidativo com, ou sem indicação de data de colheita, ou idade, impressa no rótulo.

Caracterizam-se por serem vinhos frescos e elegantes, uma obra-prima resultado da cumplicidade entre a natureza e o homem. De características ímpares, os generosos de Setúbal são de eterna volúpia, de enorme sensibilidade e prazer, maravilhosos na harmonia, sempre difícil, entre açúcar, álcool e frescura. É comum o Moscatel de Setúbal ser referido como «um monumento de arte agrícola e uma glória nacional» o «príncipe dos moscatéis» o «patrimônio nacional que se bebe». O francês Léon Douarche referiu-se ao Moscatel de Setúbal dizendo: “ É o Sol em garrafa”.

Os Moscatéis de Setúbal são colocados no mercado a partir de 2 anos de idade, podendo ostentar na rotulagem o ano de colheita, ou as indicações «10 anos de idade», «20 anos de idade», «30 anos de idade» e «Mais de 40 anos de idade», desde que o vinho em causa, ou cada uma das parcelas do lote que o originou, tenha no mínimo a idade indicada. Existe ainda o designativo Superior, atribuído a vinhos com um mínimo de cinco anos de idade e que tenham obtido na câmara de provadores a classificação de qualidade destacada.

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O Moscatel de Setúbal sobressai na História de Portugal pela distinção das suas qualidades entre os vinhos fortificados nacionais e é parte da cultura, da tradição e da forma de viver da Península de Setúbal. Desconhece-se o momento preciso em que terá começado o cultivo da vinha na Península de Setúbal, mas estima-se que os Fenícios e os Gregos tenham dado um forte impulso na divulgação do vinho, incentivando as trocas comerciais com outros povos através do estuário do Sado. A fama do Moscatel de Setúbal, além-fronteiras, terá começado na segunda metade do século XIV quando Ricardo II de Inglaterra se torna um importador assíduo de Moscatel de Setúbal.

O vinho dourado, com forte carácter citrino, doce e compotado, passa a ter lugar na nobre corte britânica. O prestígio do Moscatel de Setúbal cresceu no tempo do “Rei Sol”. De acordo com António Porto Franco, Luís XIV (1638-1715) não dispensava o vinho fortificado proveniente de Setúbal nas suas festas em Versalhes. O Moscatel de Setúbal “Torna-Viagem” é um dos grandes símbolos e foi embaixador mundial destes vinhos generosos. Nos séculos. XV e XVI, no período da expansão portuguesa, nas naus e galeões que partiram em direcção à Índia, um dos produtos transportados era o vinho. No período áureo que se seguiu aos Descobrimentos, os vinhos portugueses, nomeadamente o Moscatel de Setúbal, constituíam lastro nas naus e caravelas que comercializavam os produtos trazidos do Brasil e do Oriente.

thprodutores03Esta prática teve como consequência os vinhos de “Roda” ou de “Torna Viagem”. Ocasionalmente, os vinhos com destino ao Brasil, não ficavam no destino e voltavam à origem, daí os termos atrás referidos, de vinhos de “Roda” ou de “Torna Viagem”. Sabe-se que estas viagens demoravam na generalidade, cerca de seis longos meses em que os vinhos se mantinham nas barricas, espalhadas pelos porões das galés, sacudidas pelo balancear das ondas, ou expostos ao sol, ou por vezes até submersas na água do fundo dos navios. Acontece que os moscatéis de Setúbal evoluíam e melhoravam ainda a sua já grande qualidade. Esta evolução tão positiva dos vinhos devida à dupla passagem pelo Equador, às grandes amplitudes térmicas a que os vinhos eram sujeitos e a todas as condições, já atrás referidas, consequência do modo em que se processava o seu transporte, devolveu à origem vinhos ímpares, verdadeiras preciosidades, de tal forma que, atualmente, as garrafas que ainda circulam são disputadas em leilões de vinho onde têm alcançado valores que em 2012 rondaram os 2 000 euros. O último daquela época data de 1900, tendo sido recriado, pela primeira vez, no ano 2000, quando um Moscatel de Setúbal, da empresa José Maria da Fonseca Vinhos, SA, da colheita de 1984, por ocasião das celebrações dos 500 anos da Descoberta do Brasil, fez a viagem de ida e volta a este país, a bordo do Navio-Escola Sagres. 

Castas Principais

Moscatel de Setúbal

Sabe-se que esta casta é originária do Egipto, tendo-se expandindo pelo Mediterrâneo a partir de Alexandria, possivelmente na época do Império Romano (Galet, 1985). Cepa de vigor médio. É podada em talão, tendo uma boa produção. Tem uma floração e fecundação difíceis sendo propensa ao desavinho. Resistente à secura, é sensível ao míldio e ao oídio. Maturação serôdia. As uvas Moscatel de Setúbal constituem a base do prestigiado vinho generoso “Moscatel de Setúbal” e são também utilizadas na elaboração de outros vinhos brancos. Há várias variedades de Moscatel no mundo, todas elas com uma importante concentração de compostos (terpénicos) aromáticos, no entanto, é a casta Moscatel de Setúbal que apresenta maior concentração e riqueza desses compostos aromáticos. Os aromas típicos são bem conhecidos: casca e flor de citrinos, mel, tília, rosa, líchias, pêra, tâmaras e passa de uva.

MOSCATEL ROXO

Os vinhos produzidos com esta casta apresentam um elevado grau de doçura, são muito aromáticos e de sabor persistente. O solar desta casta é a Península de Setúbal. O seu aspecto é bastante diferente da casta branca Moscatel de Setúbal. Os seus cachos são pequenos e compactos, de bagos redondos e tom rosado, de extrema doçura. Esta casta, à semelhança do Moscatel de Setúbal, tem um perfil aromático riquíssimo e contribui, de forma inequívoca, para as características de aroma e sabor dos vinhos a que dá origem. Comparativamente, com os vinhos da casta Moscatel de Setúbal, este vinho generoso possui um aroma mais seco e complexo, mas não menos rico, à prova excede as expectativas criadas pelo aroma exibindo um paladar finíssimo onde ressaltam as especiarias e as compotas de ginja e figo.

FONTE: http://goo.gl/NDbwGk e http://goo.gl/q6IJSL

 

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