Regiões Portuguesas Manual do Vinho

Vinho verde

A história do Vinho Verde

Reza a história que terão sido os Vinhos Verdes os primeiros vinhos portugueses exportados para os mercados europeus. Nos séculos XVI e XVII, os vinhos do Vale do Minho e do Vale do Lima eram regularmente transportados para o Norte da Europa nos mesmos barcos que traziam o bacalhau e produtos manufaturados para sul.

“Já no tempo da monarquia, mais precisamente durante o reinado de D. Carlos, em 1908, reconheceu-se oficialmente a qualidade e genuinidade da região vitivinícola dos Vinhos Verdes, através da atribuição da demarcação da respectiva área geográfica de produção. ”

Hoje a Região dos Vinhos Verdes, ocupando o Noroeste de Portugal, é uma das maiores e mais antigas regiões vitivinícolas do mundo. Movimenta milhares de produtores, numa atividade econômica geradora de riqueza e postos de trabalho, contribuindo solidamente para o desenvolvimento do Minho e do país. Aqui se produzem os vinhos com denominação de origem Vinho Verde que se afirmam e valorizam como únicos no mundo.

A origem da marca Vinho Verde remete para as características naturais da região que o produz, densamente verdejante, mas também para o próprio perfil do vinho que pela sua frescura e leveza se diz verde em alusão à sua juventude e por oposição a outros vinhos mais complexos e pesados

Região demarcada

Originariamente demarcada a 18 de setembro de 1908, a Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se por todo o noroeste de Portugal, na zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Tem como limites a Norte o rio Minho, que estabelece parte da fronteira com a Espanha, a Sul o rio Douro e as serras da Freita, Arada e Montemuro, a Este as serras da Peneda, Gerês, Cabreira e Marão e a Oeste o Oceano Atlântico. Em termos de área geográfica é a maior Região Demarcada Portuguesa, e uma das maiores da Europa.

As condições naturais desta Região são as ideais para a produção de excelentes vinhos brancos, assim como espumantes e aguardentes. Os espumantes de Vinho Verde têm revelado uma qualidade surpreendente, ao que não será alheio o fato da Região produzir grandes vinhos que, pelo seu frescor natural e baixo teor alcoólico, mostram enorme potencial para produção de bons espumantes. Já o teor em acidez natural dos bagaços e vinhos da Região, bem como as suas características organolépticas, mostram condições técnicas excelentes para a produção de grandes aguardentes bagaceiras, a partir da destilação dos bagaços, e de excelentes aguardentes de vinho, fruto da destilação dos vinhos.

Ortograficamente, a região apresenta-se como “um vasto anfiteatro que, da orla marítima, se eleva gradualmente para o interior” (Amorim Girão), expondo toda a área à influência do oceano Atlântico, fenómeno reforçado pela orientação dos vales dos principais rios, que correndo de nascente para poente facilitam a penetração dos ventos marítimos. Esta influência atlântica, os solos na sua maioria de origem granítica, o clima ameno e elevada precipitação, traduzem-se na frescura, leveza e elegância dos vinhos desta região.

Porém variações na tipologia de solos e microclimas justificam a repartição da região em nove sub-regiões, com diferentes castas recomendadas à produção de vinhos, espumantes e aguardentes.

 

Amarante Rio Tâmega

  • Sub-região de Amarante:

Integra os concelhos de Amarante e Marco de Canaveses.

Localizada no interior da Região, a sub-região de Amarante encontra-se protegida da influência do Atlântico e a uma altitude média elevada, pelo que as amplitudes térmicas são superiores à média da Região e o Verão mais quente. Estas condições favorecem o desenvolvimento de algumas castas de maturação mais tardia: Azal e Avesso (brancas), Amaral e Espadeiro (tintas). O solo é granítico, tal como na maior parte da Região. Os vinhos brancos apresentam habitualmente aromas frutados e um título alcoométrico superior à média da Região. Mas é dos tintos que vem a fama da sub-região de Amarante, uma vez que as condições climáticas referidas favorecem uma boa maturação das uvas, sobretudo da casta Vinhão, o que permite obter vinhos com cor carregada e muito viva, apreciada pelo consumidor regional.

  • Sub-região do Ave:

Integra os conselhos de Vila Nova de Famalicão, Fafe, Guimarães, Santo Tirso, Trofa, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e o conselho de Vizela, com excepção das freguesias de Vizela (Santo Adrião) e Barrosas (Santa Eulália).

Na sub-região do Ave, a vinha é cultivada um pouco por toda a bacia hidrográfica do rio Ave, numa zona de relevo bastante irregular e baixa altitude, pelo que fica mais exposta a ventos marítimos. Assim, o clima caracteriza-se por baixas amplitudes térmicas e índices médios de precipitação. Neste contexto, esta sub-região é sobretudo uma zona de produção de vinhos brancos, com uma frescura viva e notas florais e de fruta citrina. Por toda a sub-região encontram-se as castas Arinto e Loureiro, adequadas a este tipo de clima ameno, devido a maturação média, nem precoce nem tardia. Há ainda a considerar a casta Trajadura que, por amadurecer precocemente, é mais macia, completando na perfeição um lote de vinho com Arinto e Loureiro.

  • Sub-região de Baião:

Integra os concelhos de Baião, Resende (excepto a freguesia de Barrô) e Cinfães (excepto as freguesias de Travanca e Souselo).

A sub-região de Baião encontra-se na Região dos Vinhos Verdes, no seu limite com a Região Demarcada do Douro. Localiza-se no interior da Região a uma altitude intermédia, condições que criam um clima menos temperado, com Invernos mais frios e menos chuvosos, e meses de Verão mais quentes e secos. Estas características permitem o amadurecimento correto das castas de maturação mais tardia, por exemplo o Azal e o Avesso (brancas) e o Amaral (tintas), com maiores exigências de calor no final do ciclo. Esta sub-região tem-se afirmado na produção de vinhos brancos de grande notoriedade a partir da casta Avesso, juntando aroma intenso e frutado a uma acidez viva.

  • Sub-região de Basto:

Integra os concelhos de Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Mondim de Basto e Ribeira de Pena.

A sub-região de Basto é a mais interior da Região, encontrando-se a uma altitude média elevada, estando por isso resguardada dos ventos marítimos. O clima é mais agreste, Inverno frio e muito chuvoso e o Verão bastante quente e seco, favorecendo castas de maturação tardia como é o Azal (branca), o Espadeiro e o Rabo-de-Anho (tintas). É nesta zona que a casta Azal atinge o seu máximo potencial e permite obter vinhos muito particulares, com aroma a limão e maçã verde, muito frescos. Existe ainda uma considerável produção de Vinhos Verdes tintos que apresentam muita vinosidade e uma boca cheia e fresca.

  • Sub-região do Cávado:

Integra os concelhos de Esposende, Barcelos, Braga, Vila Verde, Amares e Terras de Bouro.

Braga, Bom Jesus

Na sub-região do Cávado a vinha está localizada um pouco por toda a bacia hidrográfica do rio que lhe deu o nome, bastante exposta aos ventos marítimos, numa zona de relevo irregular e a uma baixa altitude. Estes fatores implicam um clima ameno, sem grandes amplitudes térmicas e com uma pluviosidade média anual intermédia. Nesta sub-região além dos solos graníticos, existe uma faixa de solos de origem xistosa, não sendo no entanto a sua abrangência significativa. Este clima é adequado à produção de vinhos brancos, sobretudo das castas Arinto, Loureiro e Trajadura, que se adaptam na perfeição a estas condições. São vinhos com uma acidez moderada e notas de frutos citrinos (maçã madura e pêras).

Os vinhos tintos produzidos no vale do Cávado são na sua maioria lotes de Vinhão e Borraçal, apresentam uma cor intensa vermelho granada e revelam aromas a frutos frescos. Na boca evidenciam toda a frescura climática da sub-região onde são produzidos.

  • Sub-região do Lima:

Integra os concelhos de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.

Em termos de amplitudes térmicas a sub-região do Lima está numa posição intermédia relativamente às restantes sub-regiões. No entanto, é onde a precipitação atinge valores mais altos. A altitude a que a vinha se encontra plantada é variável e aumenta do litoral para o interior, onde o relevo também é mais irregular, originando alguns microclimas no interior do vale do Lima, existindo por vezes referências a baixo Lima e alto Lima. Tal como na sub-região do Cávado, além dos solos graníticos, existe uma faixa de solos de origem xistosa, não sendo, a sua abrangência significativa. Os vinhos brancos mais afamados desta sub-região são produzidos a partir da casta Loureiro.

Os aromas são finos e elegantes e vão desde o citrino (limão) até ao floral (rosa). As castas Arinto e Trajadura encontram-se também bem disseminadas neste local, pois adaptam-se bem a climas amenos influenciados pelos ventos marítimos. Os vinhos tintos são produzidos principalmente a partir da casta Vinhão e Borraçal. Habitualmente é nas zonas mais interiores desta sub-região que os vinhos tintos apresentam um melhor potencial, devido às condições climáticas que condicionam a maturação.

  • Sub-região de Monção e Melgaço:

Integra os concelhos de Monção e Melgaço.

Melgaço – Vale do Minho

A sub-região de Monção e Melgaço possui um microclima muito particular, sendo exclusiva nas castas Alvarinho (branca) e Pedral (tinta) e divide com a sub-região de Baião a recomendação para o Alvarelhão (tinta), três castas de maturação precoce. Nesta sub-região os solos são de origem granítica, existindo em alguns locais faixas com calhau rolado. Este microclima caracteriza-se por Invernos frios com precipitação intermédia, ao passo que os Verões são bastante quentes e secos, o que denota uma influência atlântica limitada. A sub-região desenvolveu-se à volta da margem sul do rio Minho numa zona de meia encosta. Os vinhos extremes da casta Alvarinho são o ex-libris da sub-região de Monção e Melgaço.

  • Sub-região de Paiva:

Integra o concelho de Castelo de Paiva, e, no concelho de Cinfães, as freguesias de Travanca e Souselo.

A sub-região do Paiva está, a par com a do Lima, numa posição intermédia relativamente às amplitudes térmicas e temperaturas altas de Verão que se verificam na Região. Pelo contrário, já não está no grupo das sub-regiões com maiores índices de precipitação, uma vez que não está tão exposta à influência no mar, está mais no interior e a uma altitude superior. Será por esta razão que as castas tintas Amaral e, sobretudo, Vinhão, atingem estados ótimos de maturação e produzem alguns dos Vinhos Verdes tintos mais prestigiados de toda a Região. Relativamente aos vinhos brancos, são obtidos a partir das castas Arinto, Loureiro e Trajadura, adaptadas a climas temperados e, por isso, comuns a quase toda a Região dos Vinhos Verdes, mas aqui com uma aliada que é o Avesso, casta mais característica das sub-regiões interiores.

  • Sub-região do Sousa:

Integra os concelhos de Paços de Ferreira, Paredes, Lousada, Felgueiras, Penafiel e, no concelho de Vizela, as freguesias de Vizela (Santo Adrião) e Barrosas (Santa Eulália).

Tal como nas sub-regiões do Ave e do Cávado, o clima é ameno, as amplitudes térmicas são baixas, assim como o número de dias de forte calor durante o Verão. Relativamente à pluviosidade, também se caracteriza por estar abaixo da média. Esta pode ser considerada uma sub-região de transição, uma vez que não está diretamente exposta à influência atlântica, no entanto, esta influência faz-se sentir devido ao relevo pouco acentuado.

Trata-se de uma zona interior mas sem Invernos fortes e Verões muito quentes. As castas principais são as típicas dos locais mais amenos, Arinto, Loureiro e Trajadura, às quais se juntam o Azal e Avesso que têm uma maturação mais exigente. Relativamente aos Vinhos Verdes tintos vinificam-se as castas Borraçal e Vinhão, disseminadas por toda a Região, e ainda o Amaral e o Espadeiro. Este último muito utilizado para a produção de vinhos rosados.

Principais castas brancas:

  • Alvarinho

Casta cultivada particularmente na sub-região de Monção e Melgaço, mas dada a sua elevada qualidade tem sido levada para outros pontos da região e do país. O vinho caracteriza-se por uma cor intensa, palha, com reflexos citrinos, aroma intenso, distinto e complexo, que vai desde o marmelo, pêssego, banana, limão, maracujá e líchia, a flor de laranjeira e violeta, a avelã e noz, e a mel, sendo o sabor complexo, macio, redondo, harmonioso, encorpado e persistente.

  • Arinto

Casta cultivada por toda a Região (não recomendada na sub-região de Monção e Melgaço). Conhecida como Arinto de Bucelas, atinge o seu mais elevado nível de qualidade nas zonas interiores da região. Os vinhos são de cor citrina a palha, apresentam aroma rico, do frutado dos citrinos e pomóideas (maçã madura e pêra) ao floral (lantanas). O sabor é fresco, harmonioso e persistente.

  •  Avesso

Casta cultivada particularmente na sub-região de Baião, mas dada a sua alta qualidade, tem sido cultivada em sub-regiões limítrofes como a de Amarante, Paiva e Sousa. Produz vinhos de cor intensa, palha aberta, com reflexos esverdeados, aroma misto entre o frutado (laranja e pêssego), o amendoado (frutos secos) e o floral, sendo o caráter frutado dominante, delicado, subtil e complexo. O sabor é frutado, com ligeiro acídulo, fresco, harmonioso, encorpado e persistente. Estas potencialidades de aroma e sabor revelam-se somente alguns meses após a vinificação.

  •  cobertura

Casta cultivada particularmente em zonas do interior onde amadurece bem e atinge o seu nível de qualidade quando plantada em terrenos secos e bem expostos das sub-regiões de Amarante, Basto, Baião e Sousa. Produz vinhos de cor ligeira, citrina aberta, descorada, aroma frutado (limão e maçã verde) não excessivamente intensos e complexos; finos, agradáveis, frescos e citrinos, sendo o sabor frutado, ligeiramente acídulo, com frescura e jovem, podendo em anos excecionais revelarem-se encorpados e harmoniosos.

  •  Loureiro

Casta cultivada em quase toda a região e melhor adaptada às zonas do litoral, não sendo recomendada apenas nas sub-regiões mais interiores como Amarante, Basto e Baião. Antiga e de alta qualidade, produz vinhos de cor citrina, aroma fino, elegante, que vai do frutado de citrinos (limão) ao floral (frésia, rosa) e melado (bouquet), sendo o sabor frutado, com ligeiro acídulo, fresco, harmonioso, encorpado e persistente.

  • Trajadura

Casta cultivada por toda a região (não recomendada na sub-região de Baião), de boa qualidade, produz vinhos de cor intensa, palha dourada, de aroma intenso, a frutos de árvore maduros (maçã, pêra e pêssego), macerados, sendo o sabor macio, quente, redondo e com tendência, em determinadas condições, a baixa acidez.

 Principais castas tintas:

  • Espadeiro

Casta de alguma expansão na Região, não é recomendada para as sub-regiões de Baião, Monção e Melgaço e Paiva. Produz vinhos de cor rubi, de aroma e sabor à casta e frescos. Tradicionalmente vinificada em “bica aberta” em diferentes locais da Região para produção de vinho rosado.

  • Padeiro

Casta de pouca expansão na Região, sendo cultivada particularmente na sub-região de Basto, sendo hoje também recomendada nas sub-regiões do Ave e do Cávado.Produz vinhos de cor vermelha rubi a vermelha granada, de aroma e sabor à casta, harmoniosos e saborosos.

  • Vinhão

Casta de grande expansão é cultivada em toda a Região pela sua qualidade e dado ser a única casta regional tintureira. Produz vinhos de cor intensa, vermelho granada, de aroma vinoso, onde se evidenciam os frutos silvestres (amora e framboesa), sendo o sabor igualmente vinoso, encorpado e ligeiramente adstringente.

A temperatura a que é servido o vinho tem uma função preponderante na percepção da sua qualidade. A temperatura recomendada para o consumo é:

 

  • Vinho Verde Branco 8 a 12 °C;

 

  • Vinho Verde Rosado 10 a 12 °C;

 

  • -Vinho Verde Tinto 12 a 15 °C.

 

  • Espumantes de Vinho Verde 6 a 8 °C.

Sobre o autor | Website